O Homem conseguiu inventar coisas incríveis! Vejam só os meios de transporte, de comunicação e o nível da tecnologia já atingido… Porém, por que é que nós humanos, temos tanta dificuldade em sermos, simplesmente, humanos uns com os outros? E este comportamento é de tal forma notório que são inúmeras as pessoas que dizem sermos a pior de todas as espécies do nosso planeta. A resposta é simples:

Desde o nascimento até à adolescência, sem se ter consciência e por falta de informação adequada, que se bloqueia grande parte do desenvolvimento psíquico da criança/jovem, para não referir já nas verdadeiras feridas psicológicas que se lhes podem causar. No seu conjunto ainda são poucas as pessoas que sabem, efectivamente, o que uma criança e um adolescente necessitam para se tornarem num “Ser humano”, não no aspecto físico que para isso basta alimentá-lo, mas no aspecto que conduz à sua construção psíquica e que dura, em média, cerca de vinte anos.

Normalmente, o que é que acontece? Na pior das hipóteses não há educação e quando ela existe, impõe-se, na maior parte das vezes, à criança e ao jovem uma educação que os bloqueia, ou seja, uma educação descaracterizada, ou melhor, que não é verdadeiramente humana, baseada, por norma, na preocupação de passarem a imagem de que sabem educar. Educar…sim! Mas como? Estando sempre a dar-lhe ordens, a aplicar castigos, a negligenciá-lo, humilhá-lo, ridiculizá-lo, envergonhá-lo, culpabilizá-lo ou colocar-lhe etiquetas, ou ainda “chantageando”, como por exemplo: “só te compro isto ou aquilo quando fizeres aquilo que eu digo” e por aí fora…? Evidentemente que assim não é educar!

Aplicar-se esta forma de educar não faz com que a criança/jovem se torne num indivíduo humanizado, mas em alguém que vai passar toda a sua vida a fugir das suas mágoas da infância, ao ponto de construir uma falsa existência que impede o seu bem-estar ou, então, a tornar-se num indivíduo insensato, crescido sim, mas incapaz de desenvolver nele próprio valores humanos. Pode, isso sim, é utiliza-los para seu proveito, a seu belo prazer, quando lhe der jeito, porque se tornou só e apenas num manipulador bem-falante.

Será educar o equivalente a dar amor e carinho? Educar com muito amor… evidentemente que isso é desejável Porém, o pior dos pais também ama o seu filho mas a seu modo, modo este, que pode não ser o mais adequado. O célebre psicanalista Lacan já dizia que uma mãe “santa” perverte o seu filho. Por outro lado, o que significa amar para quem nunca o foi ou foi-o pouco? O carinho e o aconchego é fundamental, mas também não é o suficiente.

Quando não se sabe lidar convenientemente com as reacções da criança e do jovem, corre-se o risco de lhe bloquear o crescimento psíquico. Não é por acaso que há indivíduos manipuladores, dominadores, avarentos, gananciosos, egocêntricos, críticos destrutivos, impostores, coléricos, moralistas, obstinados a querem alcançar funções importantes na sociedade, inclusivamente espezinhando tudo e todos ou, então, pelo contrário, haver outros que são submissos, subservientes, preguiçosos e dependentes.

Parece que uns se tornam em autênticos predadores e outros em presas, mas a verdade é apenas porque estes indivíduos não conseguiram crescer como “Ser humano” durante o seu desenvolvimento. Para dar um sentido à sua existência vão construindo, na sua personalidade, esta ou aquela fachada.

Nos nossos dias a ciência humana já alcançou um conhecimento suficientemente desenvolvido para se saber o que é que um indivíduo precisa para crescer de uma forma minimamente equilibrada e assim, se tornar num ser humano na sua verdadeira essência.

António Valentim

Psicólogo Clínico