Não quero faca nem queijo; quero é fome!…

O comer não começa com o queijo. O comer começa na fome não começa com o queijo. O comer começa na fome de comer queijo. Se não tenho fome, é inútil ter queijo. Mas, se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo…

Sugeri, faz muitos anos, que, para entrarem numa escola, alunos e professores deveriam passar por uma cozinha. Os cozinheiros bem que podem dar lições aos professores.

A verdadeira cozinheira é aquele que sabe a arte de produzir fome…

Sem fome, o corpo recusa-se a comer. Forçado ele vomita.

Toda a experiência de aprendizagem inicia-se com uma experiência afectiva. Afecto, do latim affectare, quer dizer “ir atrás”. O afecto é o movimento da alma em busca do objecto da sua fome. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. O pensamento nasce da fome…

(…) Eu era menino. Ao lado da pequena casa em que eu morava havia uma casa com um pomar enorme que eu devorava com os olhos, olhando sobre o muro. Pois aconteceu que uma árvore, cujos galhos chegavam a dois metros do muro, se cobriu de frutinhas que eu não conhecia. Eram pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A simples visão daquelas frutinhas vermelhas provocou o meu desejo. Eu queria comê-las. E foi então que, provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar se pôs a funcionar. Anote isto: o pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objecto do seu desejo.

Se eu não tivesse visto e desejado as ditas frutinhas, minha máquina de pensar teria permanecido parada. Imagine que a vizinha, ao ver os meus olhos desejantes sobre o muro, com dó de mim me tivesse dado um punhado das ditas frutinhas, pitangas. Neste caso também minha máquina de pensar não teria funcionado. Meu desejo teria se realizado por meio de um atalho sem que eu tivesse tido necessidade de pensar. Anote isto: se o desejo for satisfeito, a máquina de pensar não pensa. A maneira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas antes que tivessem havido respostas.

Provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar me fez uma primeira sugestão, criminosa. “Pule o muro à noite e roube as pitangas.” Furto, fruto, tão próximos…Sim, de facto era uma solução racional. O furto me levaria ao fruto desejado. Mas havia um senão: o medo! E se eu fosse pilhado no momento do meu furto? Assim, rejeitei o pensamento criminoso, pelo seu perigo. Mas o desejo continuou, e a minha máquina de pensar tratou de encontrar outra solução: “Construa uma maquineta de roubar pitanga”. Assim, peguei um pedaço de bambu. Mas um braço comprido de bambu sem uma mão seria inútil: as pitangas cairiam. Achei uma lata de massa de tomate vazia. Amarrei-a com um arame na ponta do bambu. E fiz-lhe um dente, que funcionasse como um dedo que segura. Feita a minha máquina apanhei todas as pitangas que quis e satisfiz o meu desejo. Anote isto: conhecimentos são extensões do corpo para a realização do desejo.

A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. Anote isto: conhecimentos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia. Dizia Miguel de Unamuno: “Saber por saber: isso é inumano…” A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar faca e queijo ao aluno, provocar a fome…Se ele tiver fome, mesmo que não haja queijo, ele acabará por fazer uma maquineta de roubar queijos!

Adaptado do livro “Ao professor, com o meu carinho” de Rubem Alves

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