Por quê falar de necessidades psicológicas? Porque para os pais e para os encarregados de educação, que lidam diariamente com crianças, torna-se mais fácil fazê-lo se tiverem algumas referências desta ordem sobre o que realmente uma criança precisa para se construir psicologicamente, com um sentido mais prático para o dia-a-dia, e sem que sejam especialistas em psicologia.
Actualmente, cada vez faz mais sentido ter em consideração as necessidades psicológicas ao longo do desenvolvimento da criança, porque isso leva a aumentar a qualidade do relacionamento que ela terá consigo própria, com os outros e na sua maneira de agir no seu dia-a-dia. A criança que se desenvolve com as necessidades psicológicas mais enquadradas vai sentir-se bem com ela própria e sem necessidade de a sobre-proteger ou de permitir que ela faça tudo o que lhe apetecer. Não é por acaso que existem adultos psicologicamente complicados ou, mesmo outros que apesar de todos os sucessos financeiros ou intelectuais que possam ter tido, se encontram profundamente insatisfeitos com eles próprios e com a sua vida. Só o facto de existir, por si só, ainda que com sucesso em certas e determinadas áreas, não é revelador de se estar bem psicologicamente. E é neste sentido que é preciso ajudar a criança e o jovem, quanto mais cedo melhor apesar de nunca ser tarde demais, a se tornarem em adultos psicologicamente mais saudáveis.
As necessidades psicológicas enquanto insatisfeitas condicionam o comportamento, dando origem, que na tentativa de as satisfazer, se tenham comportamentos muitas das vezes inadequados. Outras vezes esta carência revela-se numa quebra na força vital, diminuindo o entusiasmo, a motivação para muitas coisas, fixando-se numa maior passividade. Estas insatisfações até podem, mas tarde, influenciar a escolha do futuro parceiro amoroso que, muitas das vezes, é uma tentativa infrutífera de as compensar. É como se a pessoa estivesse, inconscientemente, ainda na sua fase de criança à espera que os próprios pais as satisfizessem por ela. Da mesma forma, e reportando-nos às necessidades fisiológicas, o facto de se pensar que temos fome não é o suficiente para deixarmos de a ter. Podemos reprimi-la mas ela irá manifestar-se cada vez mais se não for atenuada. Vejam, por exemplo, o que acontece com uma falta de vitamina C: origina o “escorbuto”. O mesmo ocorre com a insatisfação das necessidades de ordem psicológica que irão dar origem a determinados comportamentos inadequados, já para não entrar no domínio das perturbações psicológicas que correspondem aos critérios de diagnóstico.
Desde Freud que se conhece como as vivências ocorridas na infância influenciam a personalidade do adulto. A sua análise e o seu estudo tem vindo a evoluir e a desenvolver-se gradualmente. Sabe-se já, por exemplo, que recorrer ao castigo, à “palmadinha”, como forma de educação já não é justificável.
Sabe-se que desde o nascimento o bebé precisa, além dos cuidados fisiológicos (alimentação, higiene, segurança), dos carinhos da mãe, do seu aconchego, do seu contacto físico, de ser acariciado por ela, do seu olhar e de ouvir a sua voz apesar de ainda não perceber o significado das palavras. É através da atenção carinhosa da mãe, de todos estes cuidados, na inter-relação mãe/bebé, que ele se vai estruturando psicologicamente de uma forma saudável. Porém, assim que a criança começa a ter mais autonomia, quando começa a andar, além da necessidade fundamental de brincar para construir as suas estruturas mentais, há outras necessidades psicológicas que surgem, pelo menos até ao final da adolescência, para não dizer toda a vida, e que são fundamentais para dar continuidade à estruturação mental de um futuro adulto mais equilibrado.
Cada filho é único na sua construção de identidade e de personalidade, cada dinâmica familiar é única dentro de um contexto específico para cada criança e para cada família. No entanto, se se souber como actuar perante as várias fases de transformações do desenvolvimento da criança, com os seus recuos e avanços, tendo em conta o que realmente ela precisa em termos psicológicos, sem grande explicações teóricas, mas orientadas para o dia-a-dia, vai facilitar, e muito, a sua vida e a de todos que com ela convivem, evitando muita frustração desnecessária. E, ao contrário do que se possa pensar, não é necessário investir muito tempo e energia para se conseguirem bons resultados. Cabe a cada um decidir o que quer fazer!
Quanto menos as necessidades psicológicas estiverem satisfeitas mais o indivíduo ficará fragilizado e inseguro perante a vida. Qualquer mudança no ritual do seu dia-a-dia, ou qualquer situação nova que se lhe apresente, será encarada por ele como uma ameaça. Em casos de maior carência, com mais gravidade, até a simples diferença pode ser vista como algo de ameaçador. Ou então, corre o risco de sofrer de uma dependência um tanto ou quanto dissimulada (droga, álcool, alimentar, sexo descontrolado, jogo, internet, trabalho, televisão). São, portanto, os indivíduos menos dependentes e mais tolerantes que possuem as necessidades psicológicas mais satisfeitas.
As necessidades de ordem psicológica quando satisfeitas alimentam a auto-estima, a auto-confiança, a auto-imagem positiva, a assertividade e desenvolvem a capacidade de reflexão, de pensar, de criar, de sonhar sem perder o contacto com a realidade, de lidar com as emoções e com os sentimentos sem os bloquear, tornando-se a pessoa, por acréscimo, num indivíduo que interiorizou os valores morais/éticos e sociais que tanto faltam no nosso dia-a-dia. É todo um conjunto de competências indispensáveis para que o ser humano se vá tornando cada vez mais humanizado.
Nos próximos artigos apresentar-se-ão as principais necessidades psicológicas e o modo de como melhor as satisfazer.
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Este género de artigos, além de muito interessante, é também da maior importância, tendo em conta que os educadores se deparam com novas dificuldades, devido às constantes mudanças na sociedade, que por sua vez se repercutem ao nível da (in)satisfação das necessidades psicológicas.
De um ponto de vista realista, por muito esforço que se invista na educação, a perfeição não existe, porém, é a dimensão afectiva da mesma que pode fazer toda a diferença. Cada ser é único, mas em comum todos temos o desejo de pertença, isto é, o de nos sentirmos integrados, aceites e respeitados na nossa individualidade.
Cabe portanto aos educadores, “criar os filhos para o mundo e não à sua imagem”. Prepara-los para as frustrações significa antes de mais, oferecer uma presença física e mais especialmente, emocional, pois independentemente das naturais crises relacionais (típicas na adolescência), é o tipo de vínculo estabelecido precocemente – entre a criança e seus modelos – que influencia mais consideravelmente a evolução da personalidade, isto é, a relação mantida consigo próprio e com os outros, a qual tende gradualmente a fixar-se.
Penso que uma das problemáticas neste contexto se deve a um carácter de inflexibilidade generalizado (educadores, sociedade,instituições, comunicação social), mediante o qual se seguem determinados padrões frequentemente desajustados.
Verifica-se que demasiadas pessoas sofrem essencialmente por não se sentirem ouvidas, algo que começa desde cedo pela falta de disponibilidade, em prol de uma estabilidade material, que muitas vezes descura os aspectos fundamentais do desenvolvimento intra e interpessoal, pelo que os comportamentos compensatórios referidos, só contribuem para um maior isolamento afectivo.
As necessidades psicológicas foram sendo remetidas para segundo plano no âmbito das prioridades da vida quotidiana, e as consequências são naturalmente uma contínua sensação de insatisfação perante a vida.
Neste sentido, o suporte emocional (família, amigos, interacção social) deve ser tido como fundamental para qualquer aprendizagem, uma vez que favorece substancialmente a auto-imagem, a capacidade de resiliência e um maior enquadramento nas mais diversas experiências.