Por que é que as pressões sociais influenciam tanto os jovens?
Que medidas é que um jovem pode tomar para fazer frente a esta influência?
Quais são as várias possíveis consequências desta pressão social?Como é que os pais podem estar melhor preparados contra esta influência?
Como é que a satisfação das necessidades psicológicas pode contribuir para diminuir estas influências?
A influência das pressões sociais na auto-imagem corporal, numa grande maioria dos jovens, tem na sua origem, como em todos os fenómenos psicológicos, vários factores subjacentes, como por exemplo: as pressões sociais, a influência dos meios de comunicação, a dinâmica da relação no contexto familiar e outros factores mais inerentes ao indivíduo.
Esta aderência, ou mesmo obsessão pelo aspecto físico, pode corresponder a uma reacção de um certo mal-estar que os jovens estão a viver, sem que eles tenham bem consciência disso, e que se manifesta através deste comportamento específico, numa idade em que o corpo se encontra em grandes transformações.
Sem querer entrar pelo caminho das perturbações psicológicas (anorexia nervosa, bulimia, dismórfica corporal entre outras) que correspondem a critérios de diagnóstico específicos, preferiria aqui, e que de certo modo é mais pertinente nesta situação que abrangem tantos jovens da nossa época, abordar uma outra perspectiva, mais prática, para tentar inverter esta situação de fascínio pela aparência física e que possa estar ao alcance de todos nós.
A influência das pressões sociais na auto-imagem corporal não é completamente absurda. Se a grande maioria das pessoas preferem ser ricas, altas, belas, famosas se possível e manterem-se jovens, é porque estas características oferecem vantagens na sociedade actual. Todavia, na história da humanidade prevaleceram outras virtudes. Ainda no início do século XX as mulheres gordas e fortes eram um sinal de beleza, porque pareciam mais robustas e mais saudáveis. Em cada cultura os qualificativos gordos, grandes, magros, pequenos, escuros, pálidos, velhos, e jovens foram, cada um deles, privilegiados em períodos diferentes da história como sinais de beleza. Porquê, então, esta mudança na nossa época?
Porque a nossa sociedade actual está sujeita à omnipresença da imagem: na fotografia, na televisão, no cinema e nas revistas. Chegou-se a uma ditadura da aparência que, evidentemente, é uma forma de desigualdade. Cabe a cada um o direito de ter o seu lugar na sociedade independentemente do seu aspecto físico.
Ostensivamente, os meios de comunicação transmitem imagens de homens e de mulheres muito atraentes, mas na verdade, essa é a sua profissão, é para isso que são pagos e para tal têm que cuidar do seu corpo diariamente, seguindo rigorosas dietas, frequentando ginásios, e tudo o mais que lhes é exigido para a manutenção dessa condição física. E já nem falo das imagens que são ainda retocadas ou falsificadas. De certo modo, todos nós também podemos ter estas actividades para cuidar do corpo, mas mais por questões de saúde e não apenas pela obsessão da aparência. Desde a infância que somos bombardeados com estas imagens de “corpo perfeito”. Esta repetição, ao longo dos anos, condiciona de tal forma o pensamento que se acaba por ter a sensação de que para se ter sucesso e se realizar socialmente é necessário aderir a esta forma de aparência enganosa.
Pior ainda! Nos jovens, isto acentua-se porque eles estão a passar por uma fase de transição tanto corporal como psíquica. O jovem, que acaba de sair da fase da infância, ainda não sabe o que vai encontrar na vida adulta. Ele precisa de se deparar com referências diferentes das que encontra nos pais para se construir como indivíduo distinto deles. Se o jovem não estiver bem com ele próprio, vai apoiar-se mais facilmente naquilo que lhe surgir no seu dia-a-dia e que lhe possa proporcionar uma esperança de bem-estar. Quanto mais acentuada for esta influência maior é a hipótese de esta vir a ser a escolhida.
Existem milhões de pessoas com características diferentes mas cada uma é única na sua estatura, na sua aparência, nos seus talentos, na sua personalidade. As pessoas que os meios de comunicação referenciam são uma ínfima amostra de todas as que existem. A imagem transmitida destas pessoas é utilizada, a maior parte das vezes, para promover a venda de artigos e produtos de todo o tipo. Os meios de comunicação não estão, minimamente, preocupados pelo bem-estar de cada um.
Vários estudos indicam que aqueles que recorrem a operações plásticas apenas com o desejo de melhorar a sua aparência física, por exemplo fazer uma correcção ao nariz, sentem-se, nos primeiros tempos, extremamente felizes com a alteração, mas, pouco tempo depois já começam a idealizar um outro retoque e assim por diante, basta ter poder económico suficiente para levar a cabo essas várias cirurgias, e quando não o têm acabam por ficar frustradas.
Mas o problema não reside propriamente no aspecto físico mas sim, na ideia que se tem dele, da auto-imagem corporal. Jovens, se quiserem manter e aumentar a insatisfação pela vossa aparência física façam o seguinte:
- Leiam apenas revistas e vejam programas televisivos que dêem muita ênfase aos aspectos corporais das estrelas de cinema e manequins famosos e outras pessoas consideradas colunáveis, e que incutem sublimadamente que assim é que é ser elegante e feliz. Pensem obsessivamente no corpo ideal que gostariam de ter!
- Continuem a repisar a vossa ideia acerca das partes do corpo que gostariam de mudar!
- Dediquem grande parte do vosso tempo livre, e do dinheiro que possam ter, para embelezar o corpo!
- Convivam com pessoas que tenham ideias semelhantes!
- Critiquem os colegas que não correspondam ao vosso ideal!
- Mantenham relações com aqueles que vos desvalorizam!
- Pensem sempre que os outros são sempre melhores do que vós!
- Considerem que se não têm namorado é porque se é gorda ou porque tem os seios pequenos e, no caso dos rapazes, por exemplo, por não serem musculosos!
- Não desenvolvam o sentido crítico daquilo que vêem nos meios de comunicação!
- Não descubram como decifrar o que a publicidade está a tentar convencer-vos!
- Não aprendam a conhecer melhor os vossos pontos fracos!
- Não tentem descobrir qual é a necessidade carente em vós para terem vontade de comprar o produto que vos estão a mostrar!
Se seguirem estas dicas vão, certamente, alcançar a melhor forma de ficarem eternamente insatisfeitos convosco e de estragarem a vossa vida. Força!
Jovens, estejam atentos! Esta fascinação pela imagem perfeita, é uma armadilha que ao cair nela vos faz regredir para uma fase primária do vosso desenvolvimento psicológico, o chamado reflexo no espelho do narcisismo, ou seja, procurar que o olhar do outro funcione como um espelho: “Eu tenho uma aparência física invejável, eu sou mesmo belo, todos me são inferiores.” Esta posição de superioridade, e ao manifestar-se na idade adulta, não facilita a relação saudável com as pessoas. E mais, se ela perdurar na vida adulta vai dificultar o relacionamento amoroso saudável, nunca se conseguirá amar o parceiro ou a parceira no verdadeiro sentido da palavra. Porquê? Porque tudo se vai focar na própria pessoa, na sua aparência. O investimento psíquico, tão necessário para uma relação saudável, nunca será para ambos, apenas servirá para um.
Independentemente do que se apresentou anteriormente, não nos podemos esquecer de que somos seres sociais e que é importante a relação que mantemos uns com os outros, em especial com as pessoas que nos são mais chegadas como os pais. Os jovens, apesar de se interessarem cada vez mais pelos amigos e cada vez menos pelos pais, à medida que vão crescendo, não deixam de precisar deles. Continua, pois, a ser necessário a atenção para esta e para outras mais necessidades psicológicas, tais como:
- Terem a atenção dos pais. Chegam até mim inúmeros jovens cujo principal anseio é que os pais lhes dessem mais atenção, que disponibilizassem de algum tempo para os ouvir, que pudessem compartilhar as suas ansiedades, as suas dificuldades e até algumas das suas frustrações. Mas ao invés, o que conseguem obter deles, mal tentam iniciar um diálogo, é uma montanha de conselhos, de soluções pré-fabricadas e não aquela disponibilidade para serem ouvidos que tanto desejavam, e que os vai, paulatinamente, levar a não querer dialogar com os pais (em próximos artigos a COE debruçar-se-á sobre como satisfazer esta necessidade de atenção e outras, até mesmo se os pais estiverem cansados depois de um dia de trabalho).
- Outras necessidades psicológicas a ter em conta nos jovens são: serem valorizados pelos pais, serem respeitados enquanto indivíduos que são, incutir neles responsabilidades, e quando acontece errarem ajudá-los, sem os humilhar ou envergonhar, a tirar as consequências desses erros e fazer com que os assumam para, desta forma, alcançarem a sua autonomia.
E ainda uma outra necessidade psicológica que a COE tem vido a defender insistentemente: a de impor limites, ou seja, o dizer “não”, sobretudo como o fazer. Apesar dos jovens já não serem nenhumas crianças, as suas conexões neuronais, nomeadamente no lobo frontal, ainda se encontram em construção. É esta área, ainda em desenvolvimento, que vai permitir controlar os impulsos e dar um certo apoio às emoções que também estão em ebulição nestas idades. Daí, dar-lhes a possibilidade de serem cada vez mais autónomos, independentes, mas, não esquecer que tê-los, tanto quanto possível, “debaixo-de-olho” é uma mais-valia. Diria até que, com os jovens, o mais aconselhável é o de negociar com eles estes limites, desde que sejam razoáveis, e fazê-los respeitar ou, então, renegociá-los quando se chega à conclusão que são demasiado rígidos ou demasiado tolerantes. A necessidade de liberdade de escolha, dentro de limites razoáveis e que não prejudique ninguém, é fundamental para a essência da liberdade do indivíduo, enquanto distinto de todos os outros, fazendo com que se seja mais consciente e mais responsável pelos seus actos.
Em suma, há que ter em conta nos jovens, sempre que possível, estas necessidades psicológicas e depositar confiança neles. Manifestar-lhes desconfiança leva-os a manterem-se na infantilidade impedindo-os de se afirmarem como indivíduos. Respeitar a privacidade deles, não os atormentar com perguntas, não estar a julgá-los constantemente, não lhes dar tudo de “mão beijada”, mas ensiná-los a negociar, a incutir-lhes o gosto do se conseguir algo pelo esforço, pelo empenhamento colocado no objectivo e encorajá-los em participar em actividades e projectos, tanto gratificantes como valorizantes, nos quais se sintam confiantes, que possam rir e desfrutar da vida. Esta é a melhor forma de os proteger de todas as pressões sociais, de prevenir futuras situações desagradáveis e de se converterem em “seres humanos” capazes de aplicarem os valores sócio/éticos.
A COE dispõe, para os jovens, um conjunto de testes que os ajuda a conhecerem-se melhor e que serão fornecidos quando solicitados. Da mesma forma, organiza formações para adultos com o objectivo os apoiar a satisfazer as necessidades psicológicas tanto nos jovens como nas crianças.
A COE tem formações para apoiar jovens e adultos a reconhecerem as necessidades psicológicas mais específicas de cada um.
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O fascínio pela beleza e a idealização do sucesso parecem de facto estar paradigmaticamente associados, independentemente do seu significado em cada cultura.
Desde as tribos primitivas às sociedades modernas, o aspecto físico sempre assumiu grande importância, enquanto “primeiro contacto” entre indivíduos, cujo impacto criou os estereótipos culturalmente estabelecidos e socialmente enraizados. Este tipo de pré-julgamento - por ser fundado superficialmente - criou por sua vez o preconceito, sendo a partir daqui que tal fenómeno se torna um problema, pois as diferenças não deveriam ser encaradas negativamente.
É paradoxal o desejo de ser-se respeitado pela própria individualidade, quando na verdade se aspira a algo que muitas vezes não corresponde àquilo que se é genuinamente, negando-se igualmente a diversidade e liberdade alheias.
Na nossa sociedade, a aparência é frequentemente um “passaporte” para determinadas oportunidades, uma forma de pressão injusta que gera sofrimento, angústia e desvalorização. Assim, a competitividade inerente a este tipo de necessidades psicológicas, contribuiu fortemente para um consumismo exacerbado, na tentativa colmatar os desequilíbrios entre a auto-imagem ideal e a auto-imagem real.
O potencial intelectual acaba desta forma por ser prejudicado, uma vez que grande parte da energia é despendida nesta “luta” desleal. Naturalmente que sentir-se bem em termos de saúde e esteticamente também, é irrevogavelmente importante, contudo, é preciso ter em conta que existem diversos tipos de beleza, pois esta não converge de modo algum num único sentido; mas quando tem por base a comparação deixa de ser uma preocupação saudável, podendo nos casos obsessivos, passar para uma anulação de si sistemática e doentia, o que traz consequências a longo prazo.
Tal como foi referido, a comunicação social é nesta temática, em grande parte responsável pelas susceptibilidades e distorções a que estão vulneráveis principalmente os jovens, cabendo por isso aos educadores, a difícil tarefa de fomentar com antecedência (logo a partir da infância), um sentido de autonomia que permita um controlo adequado da impulsividade, ou seja, uma inteligência emocional bem desenvolvida, através do exercício de uma autoridade moderadamente disciplinadora e produtiva, na qual sejam privilegiados princípios e valores que sirvam de orientação para as escolhas que se devem fazer ao longo da vida.