Michael Jackson foi catalogado como um génio musical e artístico, bem demonstrado desde os seus inícios, época em que foi reconhecido como uma criança com um nível artístico notável. Mas foi, também, uma personagem polémica rodeada de toda uma série de mitos, muitas vezes alimentados por ele próprio, sobre a sua vida privada. Seja como for a sua genialidade artística é indiscutível e reconhecida a nível mundial. Numa perspectiva psicológica, ele é um caso representativo de como a vivência da infância marca a vida adulta para sempre. Será interessante debruçarmo-nos sobre esta situação e analisar como muitas das necessidades de ordem psicológica não lhe foram devidamente administradas ao longo do seu desenvolvimento.
Vejamos um curto historial da sua vivência familiar: a família Jackson esteve sempre envolvida na atmosfera musical. O pai era músico e uma pessoa autoritária que impunha regras muito rigorosas aos filhos. Como medida de segurança, fechava-os em casa, à noite, enquanto ia trabalhar. Muito embora, como disse, as regras fossem iguais para todos eram para o jovem, Michael, mais rígidas do que para os outros irmãos, sendo até maltratado tanto física como mentalmente. Pela sua aparência era frequentemente humilhado pelo pai, que o chamava de “narigudo” e de “preto maldito”, agravando-se durante a adolescência com atitudes desagradáveis dos próprios irmãos e dos primos.
Michael Jackson, apesar de toda a sua genialidade no mundo da música e não só, de ter sido rico e famoso no mundo inteiro, como poucos o têm conseguido, era hipocondríaco, sofria de problemas de “anorexia”, de fobias de vária ordem, adicto a alguns tipos de droga e, nos últimos tempos, dependente de toda uma série de medicamentos. Michael encarnava o mito de “Peter Pan” em pessoa, ou seja, a criança que nunca cresceu, que nunca brincou o que devia ter brincado, que nunca viveu como deve ser, a sua vida de infância. Esta não vivência fez com que durante toda a sua vida adulta tentasse compensar-se das falhas da sua infância perdida. E veja-se, que logo que conseguiu atingir um nível financeiro apreciável uma das primeiras coisas que fez foi construir, na fabulosa casa que adquiriu, a sua própria “Disneyland”…
Faz todo o sentido o perguntar-se agora até que ponto as humilhações que lhe foram infligidas pelo pai, e pelos outros familiares, não o levou a querer mudar a sua aparência física e a refugiar-se na música, na coreografia e na dança para se agarrar à vida? Ou seja, o recorrer a toda a sua criatividade foi como que um lenimento para não dar em louco. Todas estas mudanças físicas a que se submeteu, toda a sua criatividade artística e toda a sua riqueza financeira não conseguiram acalmar o seu sofrimento psicológico, porque este já vinha das várias “feridas” acumuladas desde a infância que nunca foram cicatrizadas ou mesmo resolvidas.
Quantas não teriam sido as necessidades de ordem psicológica que não lhe foram minimamente satisfeitas na sua infância como, por exemplo:
- A de ter tido a atenção dos pais que lhe permitisse falar com eles sobre as suas mágoas, os seus conflitos, sem receio de ser humilhado e envergonhado;
- A de ser respeitado como indivíduo em construção, independentemente da sua aparência física;
- A de ser aceite como criança que era e de ser valorizado de forma adequada e não apenas pela belíssima voz que tinha;
- A de ter limites saudáveis consoante a sua maturação e não limites rígidos sem poder negociar, ou seja, com uma certa liberdade de escolha dentro de limites razoáveis;
- A de ter acesso à sua autonomia tendo em conta o seu desenvolvimento psicológico e não exposto às luzes da ribalta, como quase uma única alternativa para crescer;
- Por último, e nem por isso menos importante, a de poder sentir-se responsável à medida que ia vivendo a sua infância e não a responsabilidade de adulto forçado a sê-lo cujo objectivo era: conseguir ter sucesso na vida.
Para terminar, devo informar que, como é óbvio, esta análise baseia-se apenas em factos retirados dos meios de comunicação social, não devendo ser vista como uma avaliação psicológica que respeita os seus critérios de diagnóstico. No entanto, não deixa de nos fazer reflectir, por ser representativa dos possíveis erros que, nós adultos, podemos estar a cometer com as crianças sem o sabermos, mas que, actualmente, e sem querer culpabilizar ninguém, já se podem corrigir, actuando de uma outra forma, permitindo com isso um desenvolvimento psicológico mais saudável da criança.
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Obrigado Carlos pelo seu comentário que, ao mesmo tempo, me dá a oportunidade para acrescentar algo mais sobre as necessidades de ordem psicológica que a COE defende!
Estas necessidades não interferem directamente na criatividade de cada um. Porém, é possível recorrer-se a ela, numa tentativa vã, inconsciente, de se compensar ou de se colmatar a ausência da satisfação dessas necessidades psicológicas. Pensa-se que Michael Jackson se agarrou à sua espectacular voz e ao seu talento, com “toda a garra”, para tentar fugir ao seu mal-estar interior desencadeado por essas insatisfações psicológicas. Como é óbvio, tal não quer dizer que se ele tivesse tido essas necessidades psicológicas mais satisfeitas que não conseguisse ser, igualmente, criativo. Sê-lo-ia, sem dúvida, bastando para tal ter tido o necessário espaço mental.
Em relação à sua pergunta: “Por que é que isso não pode servir de exemplo para os indivíduos impulsivos destrutivos, toxicodependentes, perversos ou outros?” Vou procurar esclarecê-lo. Vejamos!
Quando um indivíduo não consegue, na infância e na adolescência, desenvolver-se psicologicamente de forma adequada isso não impede que ele cresça fisicamente, porém a nível psicológico fica “coxo”, porque houve mais prioridade nas necessidades de ordem fisiológica. Esta palavra “coxo” é uma metáfora que gosto de utilizar para dizer que o indivíduo não conseguiu alcançar um nível psicológico suficientemente maturo para a sua idade. Desta forma, ao fim de 20 anos, o indivíduo que se tornou adulto fisicamente, mas no fundo ainda imaturo psicologicamente, ou seja “coxo”, recorre a uma espécie de “bengala” para tentar “manter-se direito”, para não cair por falta de imaturidade, que até pode começar muito antes de ter alcançado os vintes anos de idade. A “bengala” seria a metáfora de socorro para estes indivíduos: a “bengala” dos toxicodependentes, a dos impulsivos destrutivos, a dos alcoólicos e por aí fora. Cada uma com a sua aparência… com a sua catadura! E porquê uma determinada “bengala” e não outra? Porque esta escolha tem mais a ver com as relações, com as experiências e com as actividades em que ele se vai envolvendo ao longo da sua vida.
Por fim, para argumentar mais, ainda queria referir a dificuldade da sociedade em querer endireitar estes indivíduos com castigos ou outras obrigações, o que faz com que a taxa de sucesso seja reduzida. Imagine só, o que é obrigar um “coxo” a andar direito… Mesmo às vezes com psicoterapias não é fácil quanto mais sem elas. Sem querer excluir outros possíveis factores (genéticos, biológicos, sociais, entre outros), com intensidades e variações diferentes, que também podem estar subjacentes a estes fenómenos em geral, há que satisfazer tanto quanto possível as necessidades psicológicas da criança, porque essas necessidades permitem a maturação psicológica desde criança, do que, mais tarde, na idade adulta, tentar corrigir o que não se consegui nessa altura.
António Valentim