A retórica dos políticos diz-nos que o futuro está na Educação. Mas em qual? Onde mora? Em escolas habitadas por professores desmotivados, desmoralizados?

Li num jornal uma referência a um estudo realizado pela UNESCO, cujas conclusões sintetizo: os professores consideram que o fracasso na escola é responsabilidade dos alunos, da sua “falta de vontade”; os alunos dizem que encontram mais ajuda em casa do que na escola, quando defrontam um problema; 76,7% dos professores afirmam que os alunos não fazem as lições por preguiça; para os estudantes, o bom aluno é o que obedece ao professor, copia as tarefas e tem disciplina.

Na televisão, escutei uma professora: “Tirei uma licenciatura, mas não encontrei emprego. Nem podia dar aulas. Voltei à faculdade, para poder ser professora. Encarei esta necessidade com conformismo…” E numa sala de professores: “Eu queria era ser advogado. Mas só consegui arranjar emprego como professor…”

Quando lamentamos a desvalorização do estatuto social da profissão, teremos discernimento para entender porque projectamos uma imagem social tão negativa? Quando pensamos na indignidade do salário do professor e na degradação da escola pública, estaremos a pensar em causas ou em consequências?

Dizia um amigo que pensar Educação é pensar em problemáticas éticas e ontológicas. Antes de mais, o professor tem que desenvolver, em si, a capacidade de se libertar dos trilhos que, ao longo da sua caminhada, enformaram e construíram as suas representações de Escola e de Educação. Pensar a Escola é reorientar o Homem no Mundo, é reconfigurar o espaço e o tempo de aprender e ensinar, reelaborando a cultura pessoal e profissional: “Tenho dezoito anos de serviço e continuo a tentar ser professora. Infelizmente, cercam-nos muitos dadores de aulas que nos barram o caminho ou o tornam difícil. Para cúmulo, aqueles a quem servimos não nos respeitam e os nossos governantes não nos defendem. Mas fica sabendo que, mesmo assim, cá vamos resistindo e reinventando a nossa realidade.”

Acompanho estes caminhos feitos de resiliência. Quero lá saber dos restantes! Quando esta professora me avisou de que os professores da sua escola que não desistiam de melhorar eram somente quatro num total de noventa e cinco, eu respondi-lhe que os quatro resilientes eram maioria.

Maioria como? – replicou. E eu expliquei: sois maioria porque os outros não existem. Acompanho, ajudo e aprendo com os que querem melhorar-se, melhorando as escolas. Os outros, como eu costumo dizer, morreram aos vinte e somente serão enterrados aos sessenta…

Concordo com Beda: “há três caminhos para a infelicidade: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina, não perguntar o que se ignora”. Quando eu quis experimentar a vida de professor universitário, quis saber o que os meus alunos (futuros professores) esperavam do curso. A resposta foi unânime: Queremos saber dar aulas e manter a disciplina. Ao que eu retorqui: Então, meus amigos, mudai já de curso e de profissão, que ainda estais a tempo de serdes pessoas felizes. Perguntas que traduzissem senso crítico, nem uma escutei. Já não faziam perguntas, porque estavam a escassos meses de exercer a profissão de professor…

A retórica dos políticos diz-nos que o futuro está na Educação. Mas em qual? Onde mora? Em escolas habitadas por professores desmotivados, desmoralizados? Em escolas onde a mesmice pedagógica e o tédio imperam?

Lévy-Strauss entendia que sábio não é o que fornece as verdadeiras respostas; é o que formula as verdadeiras perguntas. Embora os professores com quem eu venho aprendendo me digam que é perigoso perguntar, eu desafio-os a pensar e a agir.

José Pacheco

Publicado no Portal da Educação

23/Julho/2009