Um comentário a uma reflexão de Eduardo Prado Coelho: “Precisa-se de matéria-prima para se construir um país”

Que admirável análise e reflexão que o conceituado professor, ensaísta e escritor Eduardo Prado Coelho (1944-2007) nos deixou e à qual gostaria de acrescentar uma modesta opinião e ao mesmo tempo apresentar uma proposta tendente a apontar um possível caminho para se conseguir a matéria-prima para construir um País.

Eduardo Prado Coelho refere que o problema da sociedade actual se encontra em cada um de nós e concordo plenamente, sobretudo tendo em conta que tal problema social advém por ainda, na sua grande maioria, não se ter atingido a maturidade psicológica desejável para se ter acesso à consciencialização de valores humanos, que tanto é defendida em teoria mas tão pouco posta em prática na vida real, apesar de reconhecer todos os progressos colectivos alcançados nos últimos séculos. Progressos como: a abolição da escravatura, a regulamentação da guerra, a denúncia de crimes contra a humanidade, o reconhecimento dos direitos humanos, o reconhecimento do papel da mulher na sociedade, os direitos das crianças, os direitos sociais e outros. Todavia são progressos, mais a nível individual, que ficam muito aquém do objectivo da consciencialização de valores humanos, muito embora para lá se caminhe. E quanto tempo é que se vai levar até se atingir esta consciencialização? Francamente, não sei! Seria uma falta de bom senso tentar dar uma resposta plausível porque tal depende de muitos factores, podendo até mesmo nunca lá se chegar. Todavia há um factor que depende de nós! E qual é ele então? A forma como se lida com as crianças.

Mas, voltemos à reflexão de Eduardo Prado Coelho …

Olhar-se para o espelho e procurar melhorar-se a si próprio como tentativa de erradicar certos e determinados vícios, para favorecer valores humanos, familiares e cívicos, embora possa ser um procedimento suficiente para algumas pessoas, é muito improvável que o seja para uma grande maioria. Porquê? Não, propriamente, por falta de vontade, mas porque não o conseguem fazer sozinhas ainda que o desejassem bastante, porque as respectivas estruturas mentais necessárias não se desenvolveram atempadamente. Para alguns até seriam precisos muitos anos de psicoterapia e mesmo assim não seria fácil. Não nos esqueçamos que o desenvolvimento psíquico, com as suas falhas e com as suas carências, levou anos a chegar onde chegou.

No início deste comentário fiz referencia à imaturidade psicológica. Mas o que é isto, afinal? Respondo recorrendo ao que foi já publicado num Blogue da COE em resposta a um comentário.

Quando um indivíduo não consegue, na infância e na adolescência, desenvolver-se psicologicamente de forma adequada e, assim, alcançar uma maturidade psicológica suficiente, isso não impede que ele cresça fisicamente, mas, a nível psicológico fica “coxo” porque o modo de como lidaram com ele enquanto criança/jovem, a sua interacção com os adultos próximo dele, desviaram-no ou bloquearam-no na sua maturação. Esta palavra “coxo” é uma metáfora que gosto de utilizar para dizer que o indivíduo não conseguiu alcançar um nível psicológico suficientemente maduro para a sua idade. Isto vai dar a que ao fim de aproximadamente 20 anos, durante os quais o indivíduo que se tornou adulto fisicamente, continue, no fundo, ainda imaturo a nível psicológico, ou seja “coxo”, levando-o a recorrer a uma espécie de “bengala” para tentar “manter-se em equilíbrio”, para que com essa falta de maturidade, não caia.

A “bengala” seria a metáfora de socorro para estes indivíduos. Há umas “bengalas” mais robustas que serão usadas pelos toxicodependentes, pelos impulsivos-destrutivos, pelos alcoólicos, e umas outras “bengalas” mais leves como às que lançam mão os desonestos, os egoístas, os interesseiros, os que querem ter sempre razão e muitos mais. Cada uma delas com a sua aparência…! E porquê uma determinada “bengala” e não outra? Porque a escolha está intimamente relacionada com as relações, com as experiências, com as actividades que têm vindo a fazer parte da sua vida e também ao tipo de apoio que teve ou não em determinados momentos do seu desenvolvimento. Chegando a idade adulta quando esta maturidade psicológica não se verifica e tendo em conta o meio social em que o individuo se vai envolver, tem a tendência, como forma de viver e de se impor, a se agarrar a certas incivilidades, a certas incongruências, a violações do respeito humano. É a forma, inconsciente, que ele encontrou de compensação psicológica para o aliviar do sofrimento e das carências que esta imaturidade lhe impõe. Mas isso não impede que, inconscientemente, fique preso numa “embrulhada” psicológica da qual não consegue sair. O ser-se humano é algo que se vai construindo desde o nascimento e não “à força” na idade adulta.

Por fim, ainda quero sublinhar a dificuldade que a sociedade encontra ao querer “endireitar” com castigos ou obrigações certos indivíduos. Imagine só o que é obrigar um “coxo” a andar direito…

Sem querer excluir outros possíveis factores (genéticos, biológicos, sociais, culturais, entre outros), com intensidades e variações diferentes, que também podem estar subjacentes a estes fenómenos psíquicos de desvalorização humana em geral, é essencial que as crianças sejam educadas de uma forma em que vá ao encontro do que ela precisa para se tornar num indivíduo que saiba aplicar os valores humanos. A criança já nasce com as estruturas necessárias pré-definidas, só precisa de um “apoio” que pode levar 20 anos. Este apoio, o mais adequado possível, vai facilitar a interiorização da metáfora do “ditador” (termo utilizado por Eduardo Prado Coelho na pergunta que coloca no final da sua reflexão) que não é mais do que o chamado, nas teorias psicodinâmicas, de “Superego”. Que se manifesta no inconsciente, mas que não deve ser encarado com um simples opressor, mas sim um aliado que o mantém em contacto com a realidade e assim participar harmoniosamente na vida em sociedade.

A matéria-prima para se construir um país está, pois, nas nossas mãos… as crianças!

António Valentim

Psicólogo Clínico da COE

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