A necessidade de estabelecer limites tem a ver, essencialmente, com o saber dizer “não” à criança. O “não” cria nela uma base para integrar na sua personalidade em construção, a auto-disciplina, o respeito, tanto por si própria como para com os outros e, com o decorrer do tempo, ajuda-a a sentir-se mais realizada e mais confiante.
Pode parecer um paradoxo, mas uma criança que cresce sem limites não é nem livre nem feliz, porque se encontra permanentemente angustiada, fica refém dos seus impulsos. Incapaz de os controlar ela sente-se constantemente em perigo. Onde não há limites nem regras fica-se com a sensação que tudo pode acontecer. Sem limites, a criança está sempre à espreita de qualquer ameaça que não sabe de onde pode surgir. No fundo, ela não se sente protegida. Não é por acaso que se encontra nas Clínicas muitas crianças que sofrem, mais do que o normal, de pesadelos ou de medos diurnos. Muitas vezes são crianças que vivem com falta de limites claramente estabelecidos.
A maioria dos pais tenta estabelecer os limites segundo a sua intuição, segundo os métodos em que eles próprios foram educados ou conforme a disposição que têm no momento, não excluindo os que optam por satisfazer todas as vontades à criança para não terem maçadas, para não terem que se aborrecer com ela ou porque, “coitadinha da criança”, a vida é já tão complicada que terá tempo de sobra para sentir as contrariedades e as frustrações. Não! Esta forma de agir não ajuda a criança a desenvolver-se saudavelmente. Mas, atenção, o estabelecer limites à criança também não pode ser uma forma, uma razão, para a maltratar ou para a humilhar.
Outro ponto não menos importante, é a necessidade dos pais terem de estar de acordo com os limites que querem pôr à criança e respeitarem as decisões que cada um venha a tomar. Melhor dizendo, tem que ficar bem definido entre o casal o que é aceitável para a criança. Da mesma forma, quando surgem opiniões diferentes elas devem ser discutidas em privado, nunca na presença da criança e, evidentemente, chegarem a um consenso. Se alguma vez não conseguirem chegar a um acordo devem, então, não hesitar em recorrer à ajuda de um especialista nesta área. É, também, muito frequente acontecer que quando um dos progenitores levanta a voz para repreender a criança logo o outro vem em socorro dela, normalmente numa atitude condenatória, procurando defendê-la e, mais grave ainda, muitas vezes desautorizando, desacreditando o parceiro. Estas atitudes devem ser evitadas porque enfraquece a autoridade do progenitor em causa. Deve-se ter sempre presente de que os pais são companheiros e não adversários!
Qualquer família deve funcionar com regras (tais como: estipular determinadas horas fixas para as refeições, para ir dormir, para utilizar o computador, entre outras). Respeitar as regras, os acordos estabelecidos, dentro de uma estrutura familiar prepara a criança para se adaptar a comunidades mais alargadas como é o caso das escolas, ou mais tarde, dos locais de trabalho, ou melhor dizendo, da sua vivência em sociedade. Porém, pode haver determinados casos mais complicados para a criança, como quando acontece um divórcio, e aí ela tem que aprender e respeitar os dois conjuntos de regras familiares diferentes, ou até mesmo um terceiro quando estiver em casa dos avós onde, naturalmente, as regras serão, possivelmente, outras.
Psiquicamente falando, o respeitar as regras, o estabelecer limites tem uma função estruturante na mente da criança, desde que sejam claros, coerentes, firmes, constantes e consequentes. A criança precisa de conhecer até onde pode ir para se sentir mais confiante e alimentar a auto-confiança, porque isso fá-la-á sentir-se mais segura.
Não deixe que os mal-entendidos e as transgressões se acumulem. Os limites que forem estabelecidos à criança têm de ser ditos de uma forma clara e firme para que ela compreenda bem que não devem ser ultrapassados. Se a criança tiver maturação suficiente, estes limites podem ser negociáveis dentro do razoável, caso contrário, basta dizer-lhe “não” e quando ela perguntar porquê, responder-lhe: “Porque o pai o disse”. E ponto final no assunto! Se a criança ainda for pequena ou se não tiver ainda maturação para reconhecer a autoridade, ela não precisa de explicações nem de negociações. Também não vale a pena dizer-lhe: “Porque quem manda aqui sou eu”. Este tipo de resposta vai, ao longo do tempo, incutir na criança o sentimento de inferioridade que também não a ajuda a se desenvolver de forma harmoniosa. Ela sabe muito bem que não tem qualquer hipótese perante a firmeza de um “não” parental. Às vezes pode-se até ir um pouco mais longe, dependendo da situação e acrescentar-se: “Porque os teus pais somos nós e cabe-nos este tipo de decisão”. Alongar a explicação poderá confundir mais a criança.
Os pais também devem estar conscientes de que a criança quando reconhece os limites que lhe foram postos vai, volta e meia, tentar testar a solidez deles e a resposta tem que ser sempre a mesma: “Não!” O pai não deve sentir-se fracassado com este procedimento da criança o estar a pôr à prova sobre o que foi estabelecido previamente. Esta atitude é normal e saudável. Demonstra que está no bom caminho, que terá, mais tarde, capacidade para argumentar, para expor as suas razões, para reclamar, porque um ser humano não é constituído para obedecer cegamente como se fosse um robot, mas para se tornar responsável pelos seus actos. Quando a criança ultrapassa o estabelecido, a tarefa dos pais também consiste em voltar a avisá-la que os limites se mantêm e levá-la a continuar a cooperar.
Esta prática de estabelecer limites aplicada no dia-a-dia da criança, e quanto mais cedo melhor, vai evitar que os pais tenham de recorrer a castigos sempre desagradáveis para todos. Porém, se a criança tiver em qualquer momento um comportamento inaceitável, tem que se ter a coragem de lhe dizer: “Estou muito triste com o que tu fizeste, vou pensar no castigo que mereces”. Mas o castigo não tem que ser demasiado pesado, mas tem que ser aplicado no momento em que ocorre o desrespeito, senão as regras e a autoridade podem ficar comprometidas no futuro. Como castigo não se deve enveredar por privar a criança daquilo que ela mais gosta de fazer ou de ter, porque isso seria um convite a um ciclo de transgressões futuras que a destabilizaria ainda mais.
À medida que o nível de maturação da criança cresce as regras podem começar a ser mais flexíveis e negociáveis, e é recomendável que ela seja ouvida sobre isso, que participe no que se pretende restabelecer oferecendo-lhe, assim, uma liberdade de escolha, sempre dentro do aceitável. O proporcionar-se à criança o seu envolvimento no estabelecimento das regras aumenta a possibilidade de uma cooperação mais consciente e, mais facilmente, ela admitir o desagrado dos pais quando as infringir.
Ainda relacionado com esta necessidade de estabelecer limites há uma outra situação importante que a criança necessita de desenvolver, também com a ajuda dos pais: começar a percepcionar que os pais têm direito a terem o seu próprio tempo livre e onde ela não participa. Cada família estabelecerá esta norma dentro das suas possibilidades e que pode até ser diária.
Outro limite importante a ter em conta é: não permitir que os filhos interrompem a conversa entre o casal. A criança precisa de perceber que a relação pai/mãe é uma relação separada e autónoma no seio da família, com a sua própria vida e na qual não se deve imiscuir.
O dedicar-se exclusivamente aos filhos, estar com eles de “manhã-à-noite”, tornando a criança o centro das atenções sem que, de vez em quando, possam ter o seu próprio tempo, é meio caminho andado para tornar a criança num ser exigente, egoísta. Além do mais, este tempo que o casal retira para si próprio vai reflectir-se de forma positiva no ambiente familiar.
Cuidar e fortalecer a vida do casal ou, em situações monoparentais, o dedicar um tempo para si próprio não é ser-se egoísta. Da mesma forma, os pais também devem ter sempre bem presente de que o que a criança precisa de ter, em primeiro lugar, é de pais e não de amigos-pais. Os amigos têm de ser escolhidos pela própria criança à medida que for convivendo com outras. Insisto em dizer que o facto dos pais, e mais ainda em situações monoparentais, se dedicarem só à criança, por sentimento de culpa ou por outras razões, é prejudicial para o saudável desenvolvimento psíquico dela.
Resumindo, a necessidade de estabelecer limites, de regras, é essencial para o salutar desenvolvimento psíquico da criança, para a sua “higiene” mental. Com um crescimento assim, a criança estrutura as capacidades psíquicas necessárias e dificilmente ocorrerão surpresas desagradáveis porque sabe-se que ela, quando deparar com obstáculos que inevitavelmente surgirão, quer seja de ordem escolar, ou pessoal como, por exemplo, uma decepção amorosa, saberá responder de forma adequada.
Toda a infância é um período de aprendizagem progressiva da condição humana, da descoberta da realidade, da vida em sociedade e, inevitavelmente, com deveres e obrigações, cujos pais participam incontestavelmente e dos quais não se podem desobrigar ou desresponsabilizarem-se.
Aplicar esta necessidade psicológica e as outras não é tarefa fácil, mas merece a pena pois está-se a criar estruturas psicológicas para que a criança consiga enfrentar os desafios da vida de uma forma positiva, de uma forma madura. É um caminho para humanizar a criança, para que possa ter poder de comunicação com os demais e para saber viver em harmonia.
A próxima necessidade psicológica a ser abordada será a “Necessidade de a criança se sentir Apreciada, Aceite, Valorizada e Respeitada.”
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Apesar de não ter mais deixado comentários tenho sido assíduo consultor do vosso site. Costuma-se dizer que pasmados são os burros(sem querem ofender ninguém e muito menos os burros) mas a verdade é como me sinto, “pasmado”, com a lucidez dos vosso artigos em geral. Será que essas “iluminárias” que por aí andam nesses programazitos pseudo-educativos não se apercebem, face ao que a COE expõe, da real mediocridade dos mesmos (felizmente exceptuam-se um ou dois comentadores pela seriedade das opiniões que emitem)e tratam de convidar quem realmente está a demonstrar valor, saber, profissionalismo, vontade de ajudar o seu semelhante numa forma simples que todos entendem, e que sabem conduzir uma situação do princípio ao fim sem se esgagarem pelo meio por não alcaçarem a resposta final esclarecedora como esses “ditos-cujos”? Digo isto porque já várias vezes tenho visto programas, especialmente relacionados com as crianças, e quando se é perguntado: … e diga-me senhor doutor (ou terei de escrever DOUTOR para não ofender)como tenho então de fazer para melhorar a situação, para saber lidar melhor com os meus filhos… metem os pés pelas mãos e remetem-se a uma resposta esfarrapada tipo: … sabe, a mente é muito complicada, isso obrigaria a várias pesquisas, etc., etc., etc. Bem, sinceramente espero que neste marasmo bacoco e dos doutorecos de faz-de-conta, a equipa da COE não esmoreça e continue nesse propósito de, construtivamente, agitar as àguas com o vosso saber e de ajuda ao nosso semelhante.
Jorge André