Comentário ao artigo “Escolas S/M” de Ricardo Araújo Pereira, dos “Gatos Fedorentos“, publicado na revista “Visão” em Outubro de 2007.
Qualquer artigo que seja escrito com um humor inteligente, ainda que possa até ser cáustico, opinando sobre ocorrências da vida social tem sempre pontos que podem ser alvo de uma análise psicológica. É o caso deste escrito em que se pode pegar em várias afirmações nele contidas e tentar explicar-se o que pode originar um adulto a tomar decisões, afirmações, atitudes que nem sempre são as mais convenientes e coerentes.
Gostaria de poder desenrolar este comentário temperando-o com uma pitada de humor para explicar como a falta de um desenvolvimento psicológico saudável da criança pode influenciar, e muito, o comportamento em sociedade do um futuro adulto. Mas respeito a devida distância neste campo, reconhecendo que a minha capacidade humorística não pode fazer face à desse grupo de “gatos” a que o Ricardo Araújo Pereira pertence.
Vamos então lá ao comentário!
“A que estado chegou o ensino…e o que não o ajuda”:
- Estarão os professores suficientemente formados para lidarem com os alunos nos tempos conturbados que se vivem hoje? Alguns dirão que antigamente se saía das escolas, dos institutos, das universidades a saber! Sim, mas entretanto, houve muitas mudanças na sociedade que requerem métodos de ensino diferentes, tendo em conta também os progressos que tem havido no campo das ciências humanas em geral.
- Que solução quando a hierarquia do ensino privilegia os resultados estatísticos favoráveis, não importando os meios que utiliza, em vez de se preocupar com o desenvolvimento das competências dos alunos e de os entusiasmar?
- E o que dizer quando o objectivo principal é ser o primeiro ou, pelo menos, fazer parte dos primeiros e concluir-se, normalmente por uma avaliação a trouxe-mouxe, que em 1000 alunos só 10 é que são bons? Será que os restantes 990 são idiotas? E é mesmo com estes 10 encontrados entre os mil que se vai ter a pretensão de se construir uma sociedade equilibrada? Que bela visão míope para se construir uma sociedade que se pretende actualizada. Este tipo de avaliação fez o seu sentido na era industrial, mas não agora na época da informação e pós-industrial. Cada criança pode desenvolver as suas próprias competências que serão naturalmente úteis, mais tarde, para a sociedade, sem ter a necessidade imperativa de fazer parte do pelotão da frente, desde que o seu desenvolvimento psicológico não seja bloqueado para não nos deparemos novamente com futuros adultos complicados.
- Porque que se fazem discursos muito eloquentes sobre a melhor forma de lidar com esta ou aquela situação e, na prática, se faz exactamente o contrário ficando apenas no ar a esperança de dias melhores? Nem queiram imaginar as consequências destabilizadoras na mente das crianças em construção quando se apercebem destas tomadas de posição antagónicas.
- Quantos são os encarregados de educação que se demitem das suas funções de educadores porque não querem ou não o sabem fazer por “n” razões? Querem os pais responsabilizar a escola pela educação dos filhos quando a função desta não é, na sua essência, educar mas sim instruir? Quando algo corre mal, porque vão os encarregados de educação logo “puxar as orelhas” aos professores em vez de procurarem colaborar com eles para tentarem solucionar o problema? Ao fim e ao cabo trata-se do futuro dos filhos.
- Quantos não são os encarregados de educação que não sabem, ou não querem, dizer “não” aos filhos para não se aborrecerem com eles ou, então, vão para um outro extremo infligindo-lhes maus-tratos, humilhações ou até a “nãos” excessivos e muitas vezes abusivos?
- Como controlar a situação quando a televisão, indirectamente, se sobrepõe ou até, muitas vezes, substitui o educador, preocupando-se mais com as audiências do que com a qualidade dos programas, contribuindo mais ainda para a destabilização mental da criança?
- Como desmistificar a ideia transmitida aos jovens que, para serem alguém na vida, têm que ser ricos, famosos, mais elegantes e por aí fora? Acham que esta ideia está correcta? É evidente que não está e, para isso, basta ver a insatisfação que muito deles têm com as suas “ricas vidas”, com a falta de sentido existencial e com o desespero “maquilhado” em boas aparências. Sugiro que a este propósito que se veja a entrevista feita ao Professor Augusto Cury, no programa “Olhar o Mundo” da RTP2 de 29 de Março de 2009.
- Por fim, pergunta-se: Será que a grande parte dos encarregados de educação sabem lidar e interagir com os filhos para que estes tenham um desenvolvimento psíquico mais saudável? Que futuros adultos queremos ter e formar?
A todas estas perguntas e outras mais não mencionadas aqui, o Projecto COE aponta algumas soluções práticas e indica um possível caminho de saída, ou de continuidade, para um mundo melhor apostando em dar a conhecer a necessidade da criança se desenvolver também psicologicamente de uma forma saudável, tanto na escola como em casa. É tempo de arregaçar as mangas e meter mãos à obra, conscientes de que a tarefa não é fácil. Estamos bem cientes dos variadíssimos problemas difíceis que atravessamos, como os que dizem respeito ao elevado índice de desemprego, à pressão exercida sobre os trabalhadores, às pressões exercidas em muitos quadros empresariais para se obter maiores rendimentos, à crescente expansão de separações e de divórcios, à falta de coesão e de transparência em muitos níveis da sociedade, ao número de encarregados de educação portadores de perturbações da personalidade ou com outras psicopatologias, ao desinteresse escolar dos alunos e tantos outros. Porém, não querer fazer nada, ficar de braços cruzados à espera de “melhores dias” é que não será certamente um bom caminho. Deixemo-nos de perder tempo a culpabilizar ou a procurar o “mau da fita” e comecemos a agir como deve ser e enquanto é tempo.
Um último detalhe mas nem por isso de menor importância: atenção às criticas que se proferem sobre os outros porque elas revelam muito sobre quem as diz. Costuma-se até dizer que quem aponta um dedo fica com três apontados para ela própria. Certos traços de carácter dos outros que tanto nos incomodam (tais como: o ser arrogante, autoritário, imoral, mentiroso, idiota, masoquista, egoísta, hipócrita), são muitas vezes o espelho de uma parte de nós próprios que não é aceite. É uma parte da nossa “sombra” interior que o outro nos vem “acordar” e que não queremos reconhecer, às vezes até, por ainda não se ter consciência dela.
Sabem que o criticar não é mais do que reconhecer o que, no fundo, reside em nós e que desconhecemos. É o efeito “boomerang” das nossas projecções psicológicas.
Pergunta-se, por exemplo: um político que tanto gozo tem em chamar corrupto a um adversário, até que ponto não tem ele mesmo esse traço? Ou um moralista tão preocupado com a defesa de valores morais até que ponto ele próprio não os atraiçoa?
Reflictam nisto!
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Sra D. Maria Dulce Costa,
Agradecemos o seu comentário e tomamos a liberdade de sugerir que fizesse uma leitura mais profunda ao artigo bem como ao Projecto COE. ou, se preferir, poderá contactar-nos para falarmos pessoalmente sobre o assunto.