Ao invés da última necessidade que foi aqui abordada – a de estabelecer limites à criança, e que, quando não é satisfeita, se manifesta mais visivelmente no seu comportamento durante a infância – este conjunto de que se vai agora falar, o da criança sentir-se apreciada, aceite, valorizada e respeitada, passa mais despercebido, só começando a ser mais notado na adolescência e, de uma forma mais marcante, na idade adulta. A insatisfação deste conjunto de necessidades, ao longo da infância, vai ser determinante para certas atitudes tomadas na vida adulta, para determinadas opções ou mesmo para certas decisões no dia-a-dia.

Por que razão se coloca todas estas necessidades psicológicas, sentir-se apreciado, aceite, valorizado e respeitado, num mesmo conjunto? Porque todas elas pertencem a factores que contribuem para a construção positiva dos laços afectivos, que preenchem o interior, que participam na construção da confiança e que, conjuntamente, dão um sentido à existência.

Os indivíduos mais carentes destas necessidades são, assim, potenciais candidatos a depressões, a queixumes e a desgostos amorosos, a idealizações excessivas, ao desejo de fusão com o parceiro, à dependência extrema de serem reconhecidos pelos outros, até mesmo ao ponto de se deixarem prejudicar. Estas pessoas vivem em permanente receio de serem rejeitadas. Sofrem em silêncio. Preocupam-se demasiado com o agradar ao outro, têm a sensação de que estão em falta para com ele. São muito dependentes da avaliação e do julgamento dos outros. Tornam-se a presa ideal para aqueles que querem dominá-las, ou até mesmo explorá-las, em proveito próprio, sendo-lhes indiferente até que ponto as magoam ou martirizam. Por tudo isto, não acredito, verdadeiramente, que haja um pai que deseje para o seu filho uma situação destas, ou seja, que por ter carência destas necessidades psicológicas, o filho seja escolhido por alguém sem escrúpulos tornando-se, assim, numa “vítima”. Julgo fazer sentido, neste contexto, aquela frase do escritor francês André Gide: “Ninguém quer ser escolhido, quer é ser preferido”.

Para outros indivíduos a insatisfação deste conjunto de necessidades psicológicas, que se manifesta com intensidades diferentes, leva à insegurança e à baixa de auto-estima, daí a origem de muitos adultos estarem sempre à espera do pior, ou que algo de negativo lhes possa vir a acontecer. Esta falta de segurança, de confiança em si mesmos, suscita uma angústia que encontra eco em várias áreas como, por exemplo, nos noticiários televisivos, e outros, através dos quais estas pessoas angustiadas encontram uma expressão para o seu estado e até um “significado” para aquilo que sentem. E mais, apesar de saberem que vão ouvir más notícias, não deixam de as querer ver/ouvir, uma vez que isso torna-se num apoio psicológico para elas. Não deixa de ser uma certa forma de dependência para conseguirem dar um significado ao seu mal-estar interior, mas que lhes mantém na insegurança. Sabendo isto, porquê repetir o mesmo erro com as crianças quando hoje tal situação já se pode remediar? Vejamos como:

Todas estas necessidades que se estão a abordar, são fundamentais para que a criança se vá construindo psicologicamente de forma a estruturar a sua mente coerentemente, para que se sinta cada vez mais segura e tenha capacidades mentais para enfrentar a vida. Como pode uma criança que tenha uma má imagem de si própria desenvolver as suas potencialidades humanas de forma positiva? A criança tem que sentir que é bem recebida, aceite tal como é. Vejamos: Se a criança desde que nasce, para já não falar até mesmo antes do nascimento, já é encarada como uma criatura indesejável e conflituosa, se mais tarde é culpabilizada por ter nascido e de ter estragado a vida aos pais, como é que se pode pretender que ela se desenvolva psicologicamente de forma harmoniosa?

Da mesma forma, os pais não podem pensar que a criança nasce para colmatar ou para ajudar a realizar os seus próprios sonhos, muitas das vezes almejando que o filho seja o que eles nunca conseguiram ser. Não! O papel dos pais para com a criança é o de a aceitar, de a respeitar e de a acompanhar no seu desenvolvimento, de estar atento a ela e de a ajudar a construir a sua própria, e única, identidade. Há pais que, para preencher as suas carências afectivas, projectam nos filhos os seus desejos, as suas feridas não cicatrizadas, os seus fracassos… Todas estas projecções, que até se podem compreender, não ajudam a que a criança seja aceite tal como é, acabando por prejudicar o seu desenvolvimento psicológico.

Outra atitude errada a evitar é a de comparar a forma de agir dum filho com uma outra criança conhecida, por exemplo: “Devias fazer como o João” ou “Devias fazer como o teu irmão!” ou seja, uma demonstração de que a outra criança é melhor do que ele. É suficiente dizer apenas, e em poucas palavras, o que não está bem. Ou então, consoante o caso e a maturação da criança, dizer: “E se fizeres assim?” Propondo-lhe, em poucas palavras, uma alternativa possível. “O que é que achas?” Isto leva-a a pensar sobre aquilo que fez ou errou. Há que evitar fazer comparações inúteis ou insinuar-lhe que deve ser uma cópia de alguém. Desvalorizar a criança leva-a ao enfraquecimento da auto-confiança para tomar decisões, na sua capacidade em fazer escolhas, ou seja, é uma “machadada” à sua capacidade de pensar, de aprender e de se adaptar a novas situações. E se estas atitudes tiverem um carácter repetitivo, o futuro perfil da criança será de vítima e reduzirá também, inevitavelmente, a sua auto-estima.

Aceitar e apreciar a criança devidamente ajuda-a a sentir-se bem não só com ela própria, mas também, por arrastamento, estende-se aos próprios pais. É, ao fim e ao cabo, um ciclo de bem-estar recíproco e que só é possível com a renúncia dos pais à tal idealização de quererem que os filhos sejam o que eles não conseguiram ser e que já foi referido acima. Aceitar a criança com as suas diferenças é conceder-lhe o direito de existir enquanto ser único, e que faz com que ela perceba, a pouco a pouco, que possui as mesmas características, as mesmas capacidades e as mesmas reacções comuns às demais crianças. É neste “jogo” de semelhanças e de diferenças, de descoberta daquilo que ela é e daquilo que ela não é, com a acumulação de experiências variadas, que a criança começa a se conhecer bem, conquistando e alimentando não só a sua auto-confiança, como também a consciência de si própria. Com estas vivências a criança vai sentir-se honesta e correcta, porque se encontra em sintonia com ela própria. Se não se ensinar a criança a ser honesta com ela mesma como é que se pode pretender que o seja com os outros?

Ao relançar-se um olhar pela história da humanidade constata-se que está repleta de ocorrências que demonstram as dificuldades em tolerar as diferenças entre os indivíduos e, até mesmo, as diferenças colectivas. Porquê? Porque se obrigou, e continua a obrigar-se, as crianças a serem adultas à “pressão”, antes do tempo, sem que houvesse a preocupação de alimentar a auto-confiança delas. A criança precisa de viver a sua infância, de ser real e sincera com ela própria. Quanto mais a criança se desenvolver com esta falta de confiança, mais dificuldade vai ter, na idade adulta, em tolerar o que é diferente. Esta situação vai conduzir à dificuldade de aceitar, por exemplo, pessoas de outras raças, pessoas com outros hábitos, pessoas que defendem outros valores e tudo o mais que não se coaduna com as suas ideias, acabando por sentir o que é diferente como uma ameaça para ela. Quanto mais equilibrado for o nível de auto-confiança mais fácil se torna aceitar e tolerar as diferenças.

Já que falei em “tolerar” ocorre-me dizer que é comum pensar-se que a tolerância é o nível mais evoluído que se alcançou na história da humanidade mas, na verdade, ainda não é. Porquê? Porque na tolerância há um vazio afectivo. Ser tolerante é considerar o outro como um “erro” aceitável. Esta atitude de “tolerar” ainda origina, geralmente, um certo desconforto a quem se sente que está a ser “tolerado”. Para além da tolerância encontra-se a empatia, que não é mais do que tentar compreender os sentimentos do outro. Se se conseguir atingir um amadurecimento psicológico ainda maior, surge a estima, estimar o outro pela sua diferença, estimá-lo por aquilo que ele realmente é, mantendo, porém, cada um a sua distância. Pode parecer uma utopia mas não é! Porém, é necessário ajudar a criança a se desenvolver com auto-confiança. Assim, chegando à idade adulta, a outra pessoa “diferente” já não se apresenta como uma ameaça, pelo contrário. Cada uma, por ser diferente, vai aprender e “crescer” mais psicologicamente, desenvolvendo-se uma interacção construtiva para ambos, conseguindo mesmo defender os seus direitos sem procurar desconsiderar o outro, antes respeitando-o, isto não é mais do que ser assertivo.

Neste conjunto de necessidades, o acto de valorizar a criança pode ser um “pau de dois bicos”, tudo depende da forma de como é feito. Por exemplo, quando um pai diz à sua filha: “Muito bem, és uma boa menina!” ou a mãe diz ao filho: “És o lindo menino da mamã!” estão a transmitir à criança a ideia de que ela é apreciada e valorizada, que é uma boa pessoa porque fez algo correcto. Porém, nas entrelinhas, os pais estão a transmitir a sensação de que se não o tivesse feito dessa forma já não seria assim tão boa ou então que não merecia ser tão acarinhada. É preciso ter cuidado com estas afirmações, porque não há nenhuma criança que consiga comportar-se sempre bem. E transmitir-se a ideia ao longo do tempo de que “agora és boazinha” e “agora já não o és” em nada ajuda a criança a se estabilizar e a sentir a necessária segurança psicológica. Mas, como é evidente, não será uma ou duas experiências destas que a vão traumatizar mas, se for de forma continuada terá um impacto negativo. Como proceder então?

Em primeiro lugar nunca é tarde para dar um novo rumo à situação. Uma criança para se desenvolver psicologicamente saudável tem que se sentir sempre amada, independentemente de ser correcto ou não aquilo que ela possa fazer. Em segundo lugar, é necessário que se separem as atitudes que a criança toma em relação ao que ela realmente é. Há que destrinçar a criança como pessoa daquilo que ela faz, da sua forma de se comportar e dizer-lhe: “Eu gostei daquilo que tu fizeste” e, consoante o caso, acrescentar ”Estou contente por o teres feito mesmo sem eu ter que o dizer”, ou “Estou contente porque te lembraste das regras que tínhamos estabelecido.” Afirmações desta ordem ajudam a criança a tomar consciência dos seus comportamentos, daquilo que ela fez, e apoiam-na para poder pensar e fazer conexões coerentes na sua mente. Há, pois, que evitar dizer palavras, quer sejam positivas quer sejam negativas, que lhe possam transmitir a ideia de que se está a “rotulá-la”. Há que focar sempre o que ela faz e não o que ela é. Tem que se ter em atenção que uma criança, em pleno desenvolvimento, é mais sensível, e não menos sensível como é usual pensar-se, àquilo que se lhe diz e como se diz do que os adultos.

Outros casos a evitar, pelo seu conteúdo nefasto, são os de apelidar a criança de má, estúpida, egoísta ou mentirosa. Dizer palavras que tenham uma carga de julgamento negativo enviam à criança uma mensagem implícita de que ela não vale nada. Destruir alguém e depois querer reconstruí-la sobre os destroços, duma forma equilibrada, não é possível.

Um mau comportamento não é sinónimo de uma criança má. Se a criança interioriza a ideia que ela é má, isso certamente, não a vai tornar boa, pelo contrário. O interiorizar a ideia de que é má faz com que ela escolha, mais cedo ou mais tarde, más companhias. A escolha de más companhias não é só fruto do acaso! É porque ela interiorizou esta ideia de ser uma má pessoa e, evidentemente, por não estar bem com ela própria procura, inconscientemente, este tipo de companhia, ainda que possa dar a ideia de ser uma criança obediente.

Sempre que a criança se sinta diminuída, envergonhada, ou, pior ainda, humilhada perante os outros, culpabilizada, embaraçada, estamos a menosprezá-la, a negar-lhe o respeito que lhe é devido enquanto indivíduo, estamos a destruir a sua segurança interior e a danificar a avaliação que ela faz de si própria, ou seja, a sua auto-estima. Quanto mais se criticar a criança mais ela se torna sensível às recriminações. Respeitar a criança é, também, pedir-lhe licença para utilizar algo que lhe pertence e agradecer-lhe quando se devolve. Se não se respeitar a criança, como é que ela pode vir a respeitar os outros?

O que infelizmente se tem feito, ao longo da história da humanidade, é obrigar a criança a ser respeitadora à custa do medo a castigos, mas isso não a vai tornar num futuro adulto equilibrado. Uma criança que cresce com base em intimidações vai ser, muito provavelmente, um indivíduo inseguro, com pouca capacidade em tolerar os outros e de se relacionar com o seu semelhante de uma forma construtiva. Porquê continuar, então, a se formarem tantos indivíduos sujeitos a serem violentos ou a sofrerem de uma dependência?

A criança, à medida que vai crescendo, tem necessidade de sentir que tem valor aos olhos dos pais. Se estes nunca a valorizarem como é que querem que ela desenvolva as suas capacidades, o seu potencial de valores humanos? Sem esta valorização a criança é levada a pensar que não vale a pena fazer nada porque os pais não reagem faça ela o que fizer, piorando ainda se a desvalorizarem. A criança para se desenvolver saudavelmente tem que pôr as suas capacidades à prova, mesmo que possam ser erradas ou disparatadas, sem ser objecto de ridicularização. Tem de se tentar valorizar o pouco que ela possa fazer de positivo e pô-la a pensar sobre o que errou, mas sempre sem a criticar. Cada apreciação, por muito mínima que seja, dá-lhe motivação para continuar e, assim, adquirir de forma consciente mais capacidades e uma maior responsabilidade pelos seus actos.

A criança, até aos 11 /12 anos, e porque os pais são um modelo de referência, tem uma tendência inata para os imitar tanto nas boas como nas atitudes menos boas. Esta tendência não é mais do que uma forma de se sentir apreciada, aceite, amada e, até, de se manter ligada a eles. Se, porventura, os pais forem sempre pessoas tristonhas, maldispostas, aborrecidas, gritadoras, indiferentes, ou seja, tudo o que possa demonstrar negativismo, corre-se o risco de a criança acabar por interiorizar esta forma de estar. Repito, não esqueçamos que os pais são exemplos para os filhos, muito especialmente nesta faixa etária. Os pais não devem mostrar falta de civismo, em especial com a criança presente, e depois vir dizer-lhe frases do tipo “faz aquilo que eu digo e não aquilo que eu faço”, porque ao agir-se desta forma, está a ensinar-se à criança, ainda que indirectamente, de que as palavras não têm um sentido realmente verdadeiro, que só servem para enganar, correndo-se o risco de ela vir também a repetir este modelo no futuro, ou seja: aquilo que se diz não é para se fazer. Cabe agora perguntar: Quem é que não se queixa da existência de indivíduos desonestos ou hipócritas? Quantos casais não se queixam de serem enganados pelo seu parceiro? Ser um bom exemplo para a criança é muito mais eficaz do que, mais tarde, imporem-se castigos numa tentativa de a corrigir.

Em suma, aceite-se, aprecie-se, valorize-se e respeite-se a criança como ela é na realidade, tendo sempre em conta todas as outras necessidades psicológicas já referidas nos artigos anteriores, porque tudo isso a vai fortalecer, tornando-a menos vulnerável perante a vida.

Ajudar convenientemente a criança a se desenvolver com auto-confiança é muito mais fácil do que ter depois, já em adulto, de frequentar, às vezes anos a fio, terapias ou ficar sempre insegura. Mas para se atingir este estado de maturação, que permite esta auto-confiança, são necessários os cerca 20 anos de desenvolvimento psicológico harmonioso, ou o mais possível. É a maturação neurológica necessária para se atingir a potencialidade dos valores éticos e morais humanos. Isto já não é nenhuma utopia!

As próximas necessidades psicológicas a serem abordadas são: a necessidade de ser responsável e a de liberdade de escolha dentro do aceitável.

António Valentim

Psicólogo Clínico da COE

(Se gostaria de receber as nossas novidades, quinzenalmente ou mensalmente,  e ainda não se inscreveu na nossa mailing list, convidamo-lo a inscrever-se na mesma preenchendo o campo Emailno nosso site logo a seguir a Mailing list – Subscreva à nossa mailing list”)