O Natal é uma das festas mais importantes na tradição ocidental que se enraizou na nossa cultura ao ponto de ser celebrado por crentes e não crentes. Com a chegada do Natal instala-se uma autêntica revolução na vida da criança uma vez que o seu imaginário começa a ampliar-se. Então, e lá bem no fundo, vem à mente dos pais a pergunta: Será que se deve alimentar na criança esta realidade não verdadeira? Abusar-se da sua inocência?
Na verdade isto é um mero ponto de vista de adulto que não tem nada a ver com o da criança. Assim, fazê-la acreditar no Pai Natal é saudável, não é educá-la para ser uma futura intrujona. Aliás, na tenra idade, a criança nem sabe o que é mentir. Neste período ela ainda confunde o imaginário com a realidade (o chamado pensamento mágico), vive num mundo meio real e meio imaginário, povoado de fadas, de lendas, de heróis, de príncipes encantados, de objectos com os quais ela fala. Há uma necessidade de permanecer encantada por maravilhas com as quais ela se envolve, para se proteger da realidade exterior demasiada violenta que lhe provoca ansiedade.
O Pai Natal é algo de mágico, de misterioso, de festivo, como também, algo de generoso, de bondoso, de prazenteiro e com uma ternura particular com a oferta de presentes. O Pai Natal faz parte da fantasia infantil que se vai superando com o tempo e à medida que a criança vai amadurecendo. Na nossa visão de pessoa adulta o Pai Natal pode ser uma mistificação, mas o carinho, os afectos que ele encarna não o são e enraizar-se-ão na mente da criança para sempre. Há que deixar para mais tarde os bons costumes quando ela alcançar a “idade da razão”. É, portanto, salutar que os adultos se envolvam com a criança, enquanto é tempo, para assim, em conjunto, desfrutar os momentos que esta figura imaginária, mítica, poética, de conforto e de protecção psicológica, proporciona. Aproveite bem o momento! E se enriquecer as histórias que lhe vai contar com detalhes emocionantes e deslumbrantes melhor ainda. O objectivo não é de contar à criança uma história que seja credível, mas uma irreal e, sobretudo, deixá-la sonhar. A criança vai adorar!
O Pai Natal com a sua barba branca, com as suas rugas tranquilizadoras e com o seu sorriso encantador, tem magia. Transmite algo de simbólico e mantém os laços com o passado, a filiação com os familiares. São rituais que devem ser conservados. Na tenra idade fazer crer no Pai Natal, acreditar nele, ajuda a criança a crescer. A criança, ao acreditar nele, vai estruturar na sua mente as bases para que os seus desejos possam ser realizados. É uma espécie de “antídoto”, em pequena escala, contra a preguiça. Motiva-a para a vida, cria alicerces para se interessar pelas “coisas”, para na vida adulta ter vontade de alcançar objectivos. O imaginário da criança, até por volta dos 5 anos, ocupa um lugar importante para o seu desenvolvimento psicológico.
Atribuir ao Pai Natal a entrega das prendas não deixa de facilitar a vida aos pais; a criança não poderá dizer que foram eles que não quiseram comprar tudo o que ela desejava. O que vai estruturar a criança não é a quantidade das prendas, mas pelo contrário, todo o ambiente carinhoso que envolve este ritual mágico.
Mais tarde, outro factor relevante é como a criança vai encarar a realidade desta não existência do Pai Natal. Como actuar sem a desiludir, sem que ela fique envergonhada, sem sentir-se enganada ou traída?
Há várias abordagens possíveis mas deve ter-se sempre em conta a maturação da criança, mais ainda do que a idade. A mais aconselhável delas é procurar nunca romper abruptamente com aquilo que a criança ainda acredita, mas também, não tentar continuar a alimentar a ilusão quando ela já não acredita. Enquanto as perguntas certas não forem colocadas pela criança, ela não está ainda pronta para obter as respostas correctas. Deixe que a maturação cerebral da criança faça o trabalho a seu tempo e se ela continuar a acreditar, pelo menos até aos 5/6 anos, não tente desiludi-la. Se um dia a criança ficar surpreendida por ver tantos Pais Natal diferentes, nos centros comerciais ou noutros lugares, diga-lhe que estes são, efectivamente, pessoas que se mascararam de Pai Natal e que o verdadeiro só aparece quando os meninos estão a dormir. Entretanto, se neste meio tempo ela chegar triste a casa porque um adulto, uma criança mais velha ou até um colega do infantário lhe disser que é tudo mentira, que o Pai Natal não existe, responda-lhe simplesmente: “Há pessoas que não acreditam, mas eu acredito e respeito esta tradição.” Normalmente é suficiente para a tranquilizar mesmo se ela estiver triste por a quererem desiludir.
Mas afinal quando é que se deve contar a verdade à criança?
Quando ela começar a duvidar! Nesse momento pergunte-lhe em que é que ela mais gostaria de acreditar, o que é que ela quereria que fosse verdade. É necessário dar-lhe tempo para pensar para que tenha a sensação de que está a fazer o seu caminho na descoberta da verdade. Deste modo, a realidade será sempre menos dolorosa. Quando se aperceber que a criança está pronta para receber a resposta correcta então confirme-lhe que, realmente o Pai Natal não existe. Todavia, se a criança chegar a essa conclusão por ela própria, então elogie-a pela sua descoberta e desperte nela a alegria de estar a crescer. Porém, não fique só por aqui! Para a tranquilizar diga-lhe, também, que se vai continuar a festejar este dia, que será sempre um momento mágico e que ela vai continuar a receber as prendas à mesma. Fale-lhe de si. Diga-lhe que quando tinha a idade dela também acreditou no Pai Natal muito tempo, que achava a história maravilhosa e que, por isso, quis partilhar este encanto, esta magia, com ela. Proponha-lhe para não dizer nada às crianças mais pequenas, para guardar este segredo. Ela vai adorar sentir-se guardião de um segredo e vai encarar esta história do Pai Natal como um segredo e não como uma mentira.
Após os 6 anos e se a criança ainda continuar a acreditar será conveniente começar a falar-lhe no condicional, ou seja, ponha-a a reflectir, a duvidar, colocando-lhe perguntas do tipo: “Será que ele existe mesmo?” Explique-lhe que as pessoas não voam no céu num trenó e que não descem pela chaminé para entrar em casa. Porquê colocar estas dúvidas nela? Para que ela comece a pensar sobre a verdade desta história e para não se sentir ridícula perante os seus colegas da escola, para não ser enxovalhada nem ser chamada de bebé. A partir dos 6 anos já se pode ajudá-la a pôr os “pés no chão” para ela não se sentir traída mais tarde.
Todo este imaginário, esta magia encantadora e, mais tarde, esta carinhosa passagem para a realidade vai construir saudavelmente a mente da criança. Não procure dizer a verdade à criança, com o intuito de a proteger da desilusão, antes do seu tempo de maturação neuronal. Os adultos que se apressam a contar a verdade à criança antes deste tempo são, provavelmente, adultos que na sua infância não viveram esta passagem do imaginário para a realidade da melhor forma. É normal e compreensível! Mas a criança não tem que pagar por isto se os pais souberem como lidar com a situação.
Quando, ao longo da infância, vivências como estas, entre centenas de muitas outras, são tratadas de forma adequada faz com que a criança saiba aplicar no futuro, os valores humanos de uma forma espontânea, sem nunca ter tido uma aula teórica de moralidade ou de ética. Porquê? Porque os viveu, os estruturou, sem se aperceber disso. Estes valores já se encontram, de uma certa forma, pré-estabelecidos na sua mente. Ela só tem que ter oportunidades para os manifestar, crescer com os mesmos e, inevitavelmente, tornar-se num adulto responsável, que saiba estar bem com ele próprio, que saiba ser útil para os seus e para a sociedade em geral, sem se prejudicar nem a si nem a ninguém, pelo menos, a possibilidade disto vir a acontecer é enorme.
De todas as formas, e por tudo o que se expôs neste artigo, nada melhor do que juntar-se com alegria a este espírito natalício e fazer que sejam momentos mágicos e inesquecíveis. Desfrutai, pois, o espírito do Natal!
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Reflexão boa e importante. Para quê dramatizar? Centremos as preocupações no que é importante. A figura do Pai Natal e/ou do Menino Jesus, cria um clima de entusiasmo e fantasia… não são só as prendas… a preparação, os enfeites… o ambiente. A parte do consumismo só aos adultos diz respeito… são eles que decidem e aí… sim… devem reflectir… deveriam decidir por não baralhar a criança com excessos… uma criança, fica feliz só com o espírito e ambiente. Ela fala nas prendas, porque não sabe falar bem e porque os adultos se centram nisso e depois concretiza no palpável,mas a magia do momento é o que ela mais gosta… a ansiedade, os enfeites, as histórias, a árvore e presépio.
Viver uma mentira, é criar situações sem amor nem respeito… dar hipóteses de ao menos 1 vez no ano, deixar as crianças sonhar sem estragar suas fantasias, é um gesto de amor. Já vi pessoas que o não fizeram e seus filhos sofreram e revoltaram-se e nem por isso são adultos mais honestos.
Bom senso