Não é intenção deste artigo desincentivar o uso da internet mas recomendar certos pontos fundamentais. O que é que pode esconder esta dependência? Qual a melhor forma de se conseguir que os jovens utilizem a internet moderadamente? É preciso limitar o tempo de utilização, sem dúvida, mas o que é se deve ainda fazer mais?

A dependência da internet é uma nova dependência, um novo vício, que afecta cada vez mais não só os jovens mas também os adultos que procuram uma constante necessidade, não de informação propriamente dita, mas de um escape ao mundo real regredindo à fase de omnipotência ilusória da infância “winnicottiana” mais aceitável, mais gratificante, fazendo com que as restantes actividades, como a convivência familiar e o trabalho passem para segundo plano. A internet é, de facto, uma fonte de liberdade e de construção de redes sociais onde a conotação virtual, desde que predominante, se torna prejudicial em termos de saúde mental.

Quer com isto dizer-se que a internet impele indubitavelmente à “ciber-dependência” certas pessoas. A dependência à realidade virtual inscreve-se no mundo das dependências como qualquer uma outra (álcool, droga, alimentar, jogo, trabalho, sexual, compras compulsivas, ou outras actividades também compulsivas). Este aparecimento de dependência ao mundo virtual, juntamente com o desenvolvimento das novas tecnologias, pode ser a moderna expressão de mal-estares que muitos enfrentam e um sintoma de carências afectivas ou psicológicas já existentes. Esta dependência é, portanto, uma forma de evitar o ter de se encarar a realidade quando esta se torna demasiado angustiante, frustrante e insuportável.

A utilização excessiva da internet revela um disfuncionamento social, familiar, podendo até mesmo interferir na área profissional e académica devido à má gestão de tempo. Todo este comportamento vem confirmar que as necessidades psicológicas do indivíduo não foram tidas em conta, já desde criança, como a de ser valorizada e a de se sentir aceite. Este mal-estar revela, também, um vazio de identidade, uma falta de sentido existencial, que necessita de ser invertido e de ser preenchido nesta mesma pessoa. Qual é a melhor forma de se prevenir contra esta nova e subtil dependência ou, para utilizar uma palavra mais actual, esta “adicção”?

Para se perceber melhor a situação de uma pessoa dependente do mundo virtual, poder-se-ão colocar-lhe algumas perguntas como: Foi, enquanto criança, criada com limites e regras adequadas? Qual o ambiente afectivo em que foi criada? A atenção que teve dos pais foi suficiente? Houve possibilidades de reflexão e de expressão sem ser criticada ou julgada? Durante a infância teve oportunidade para se envolver em actividades que a valorizasse e que lhe tivesse sido dado, para algumas delas, o poder de escolha, e que a fizesse sentir que existia como pessoa? Foi ajudada a tomar consciência dos seus erros, sem ser humilhada, auxiliando-a no desenvolvimento do sentido de responsabilidade? Teria tido a oportunidade de aceder à sua autonomia de forma gradual? Teriam sido resolvidos, ou trabalhados, possíveis traumatismos e outros bloqueios sofridos? Para ajudar um jovem, as mesmas perguntas podem ser colocadas, mas no presente, no contexto em que ele vive actualmente.

De uma forma geral, as respostas a estas perguntas determinam o equilíbrio psicológico do futuro adulto, porque têm a ver com a estabilidade emocional, com a auto-estima, com a auto-confiança, com o sentido de responsabilidade e de alcançar a maturidade suficiente, tanto para enfrentar como para ultrapassar situações complicadas ou mesmo perigosas. Agora, resolver-se uma dependência na idade adulta será mais complicado! Terá que ser analisada caso a caso.

O que se pretende aqui evidenciar é a importância dos adultos estarem melhor apetrechados para lidarem com crianças, mais sensibilizados para as necessidades psicológicas delas ao longo do seu crescimento e, desta forma, impedir, tanto quanto possível, que hajam futuramente tantos adultos com problemas de dependência ou, ainda, tentar impedir que desenvolvam outras complicações do foro psicológico.

Em suma, o foco do problema não deve residir nas novas tecnologias, ou noutras possíveis invenções com todas as virtudes e defeitos, mas nas características de personalidade de quem as vai utilizar, personalidade essa que se foi construindo ao longo da sua infância e estruturada na adolescência.

António Valentim

Psicólogo Clínico da COE

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