Os pais separados que utilizam a presença da criança para alimentarem o conflito ou mesmo para se vingarem um do outro como por exemplo: desvalorizando, criticando, relatando factos exagerados ou não verdadeiros, incriminando-se com falsas acusações, tentar evitar que um deles tenha contacto com a criança procurando impedir o relacionamento com um deles quando a criança manifesta esse desejo e outras possíveis situações desagradáveis, não resolvem os seus problemas conjugais.

Estas atitudes, podem parecer, à primeira vista, uma espécie de vitória, mas apenas superficial, um alívio de tensão pessoal, mas o que se consegue, sobretudo, é fomentar mal-estares na criança e comprometer o seu futuro bem-estar psicológico.

E, pior ainda, com o decorrer do tempo, o pai que actuar com a criança desta forma insensata corre o risco, quase inevitável, de que ela se revolte contra este pai que “agride o outro”. Mesmo que seja realmente uma pessoa muito complicada, até mesmo perturbada, não critique o outro elemento parental da criança, não faça nenhuma censura, não diga nada. Deixe que seja a criança a construir a sua própria opinião desde que, com é óbvio, ela não corra nenhum perigo. Sugerimos a visualização do documentário abaixo inserido e que relata os testemunhos de crianças que foram vítimas deste tipo de atitudes por parte de um dos pais.

Outro ponto importante com que nos deparamos nestas situações de separação (que se constata muito na prática clínica) é o da criança, ao retornar a casa depois de ter passado algum tempo com um dos pais, vir mal-humorada, aborrecida, até mesmo irritada. Não encare estas atitudes da criança atribuindo-as ao facto de ter estado com o outro cônjuge, como se isso tivesse algo de negativo, de pernicioso. Deixe a criança exprimir a sua ira, o seu desgosto por uma situação que não escolheu porque ela sente-se infeliz, impotente, por isso não a trave, com as suas observações, deixa-a expressar os seus mal-estares sem fazer-lhe qualquer comentário nem tirar conclusões precipitadas. Nestas situações, contenha-se o mais possível porque isso só vai ser benéfico para ambos. É normal e saudável a criança expressar emoções desagradáveis, mas sem que seja criticada nem manipulada, para que ela se sinta compreendida e entenda assim melhor as emoções que está a viver.

E porque é que a criança manifesta muitas vezes esse desagrado depois de ter estado com o outro pai? Porque é, justamente, nesse momento em que regressa que a criança é confrontada com a dolorosa realidade da separação dos pais. Por isso mesmo, deve evitar-se a todo o custo que a criança se sinta responsável por esse conflito que os levou à separação, nem ser arrastada emocionalmente neste desentendimento. Não é fácil para uma criança passar de uma casa para a outra com regras e hábitos diferentes.

Ajudar a criança a crescer saudavelmente é acompanhá-la na sua experiência de que cada pai continua a cuidar dela embora de forma diferente e sentir que, mesmo com os pais separados, ela tem um lugar particular no coração de cada um deles. É forçoso que a criança sinta isto. Bem como, é de toda a conveniência, explicar à criança que o ir passar algum tempo com o outro pai não significa que está a abandonar o que fica, nem a traí-lo e que o gostar de um não impede de gostar também do outro. O amor que ela tem a ambos é a sua razão para existir. Não vale a pena destruir-lhe isso. Ela precisa de referências seguras para dar um sentido à sua vida e para construir a sua identidade. Por outro lado, ela também não é o consolador nem o confidente, de nenhum dos pais. O pai é suposto apoiar a criança e não há que inverter os papéis. Se um pai necessita também de ser consolado, de ser apoiado, terá que pedir ajuda, mas não o da criança.

Tudo que tranquiliza a criança, que a afasta de conflitos, da inversão dos papéis, das manipulações, das críticas e das desvalorizações mutuas parentais permite-lhe aceitar a realidade da separação. Caso contrário, é o suplício para todos. Corre-se o risco de a criança se tornar todo-poderosa e tentar manipular tudo aproveitando as oportunidades favoráveis que lhe vão surgindo ou, então cair para o outro extremo e isolar-se em demasia.

Uma separação nunca é uma situação agradável. Inevitavelmente, o ódio, os ressentimentos, o medo e outros sentimentos desagradáveis desencadeiam-se. A ternura e a cumplicidade raramente estão presentes. É comum atribuir-se a culpa sempre ao outro. Todos estes sentimentos são, de uma certa forma, normais nestas situações de separação e necessitam do seu tempo para fluírem, para serem geridos, para não se ficar preso neles, para não serem projectados na criança. Com o passar do tempo, quando se consegue gerir esses sentimentos, quando se consegue amadurecer e encontrar-se melhor a si próprio abre-se, então, uma porta para uma situação calma, para uma nova relação diferente mas salutar, um meio caminho entre o amor e a amizade. Algo de reconfortante, mesmo com as suas ambiguidades, que facilita a nova relação dos seus membros e que permite o desenvolvimento saudável da criança.

Para quem quiser ir mais além, uma vez que a criança tem confiança nos pais, quando ela deixa escapar uma critica ….  Continuação na próxima semana!

António Valentim

Psicólogo Clínico da COE

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