(Recomendamos a leitura da parte 1 aqui >>>)
Antes dos 15/16 anos não seja tolerante nem mesmo com o tabaco. Um jovem, antes destas idades, que começa a fumar fica muito mais sujeito a enveredar para o consumo doutras substâncias. O cérebro do jovem em vias de maturação não estabeleceu ainda todas as suas conexões neuronais, nomeadamente a zona do cérebro que controla os impulsos, que permitem avaliar as situações com as suas consequências e a de tomada de decisão adequada.
Um jovem ainda não tem o “travão de controlo” a funcionar correctamente, necessitando do apoio dos adultos até o consegui fazer por si próprio e que pode levar até 18/20 anos de maturação.
As substâncias contidas em consumos psico-activos (álcool, tabaco, drogas) não facilitam estas conexões neuronais envolvidas no controlo dos impulsos e comprometem o sentido de responsabilidade na futura vida profissional, familiar e social. Acho que, actualmente, na nossa sociedade já enfrentamos adultos suficientes com falta de sentido de responsabilidade!
Durante a conversa, o jovem pode também dizer que fuma, ou que toma outra substância, apenas à noite para adormecer e só de vez em quando ou somente quando se sente sozinho ou, mesmo, que consome todos os dias, porque retira certas vantagens disso, como por exemplo, fazer com que se sinta bem, poder ter mais coragem, estar mais atento nas aulas ou conseguir ter mais amigos e que não há nenhum problema uma vez que ele sabe controlar-se. Veja, juntamente com o jovem, o documentário no final deste artigo de testemunhos de adolescentes que fumavam cannabis e que também pensavam dessa forma. Quais forem as suas consequências na vida de cada um?
Proponha ao jovem irem consultar um médico ou um outro especialista para fazer o ponto da situação, justificando que não é muito normal ter que tomar algo para se sentir bem quando está sozinho, para ter mais coragem para enfrentar certas situações, para se relaxar, para descobrir sensações novas, para ser aceite num grupo ou para andar na moda. O objectivo é o de compreender qual é a dinâmica subjacente aos mal-estares do jovem e, noutros casos possíveis, levá-lo à reflexão e à responsabilização dos riscos que corre sobre a sua saúde física e psicológica.
Se o jovem souber que com a idade dele um dos pais também consumia, aproveite para lhe falar da sua experiência, da dificuldade que tinha em se controlar, do receio e do risco de se tornar viciado. Se hoje ainda fuma reconheça o seu problema de dependência, a sua dificuldade de se distanciar, e que não quer que ele também passe pelo mesmo. Acrescente que a melhor forma é a de não começar ou de acabar antes que isso se complique com o decorrer do tempo. Não cometa o erro de fumar ou de beber com ele, pensando que sempre é melhor fazê-lo com o pai do que com os outros pois assim poderá haver um certo controlo na situação. Esta atitude também não é a mais adequada porque o jovem precisa de construir o seu travão mental e está a ser impedido de o estruturar até mesmo em casa. Relembro que esse travão vai servir-lhe mais tarde, já na vida adulta, para muitas situações com que vai deparar.
Caso se aperceba que o jovem toma atitudes provocatórias, como por exemplo, deixar deliberadamente o maço de tabaco ou outra substância em cima de um móvel, não finja que não viu nada nem tome atitudes desabridas como resposta à provocação. Diga-lhe, calma e firmemente, que encontrou um maço de tabaco em cima do móvel, ficou preocupado e que quer conversar com ele sobre isso.
Não vale a pena dizer que o que ele consome é proibido, mas sim que se sente triste e se não quer que ele fume ou que consuma essas substâncias é porque o seu cérebro ainda se está a desenvolver e pode ser danificado. Se o jovem tiver confiança nos pais e houver um mínimo de autoridade em casa, ele será sensível a estes argumentos. Caso contrário, e insiste-se nisto, é melhor pedir apoio para a situação não se agravar.
De uma forma geral, manter uma linha dura, firme e coerente não é uma causa perdida nem que, como se pensa muitas vezes, quanto mais se insiste com o jovem mais se piora a situação. A conduta aconselhável é repetir o seu desacordo sempre que for necessário e isso ajuda-o a estruturar o seu travão mental à medida que o seu cérebro amadurece. Da mesma forma, no decorrer da conversa não foque tanto o consumo da substância em si, mas procure perceber o que é que se está a passar com o jovem. Deixe-o expressar-se, ouvi-lo falar dos mal-estares, demonstre-lhe o seu interesse pela vida dele no âmbito das suas relações, dos comportamentos que tem tido ultimamente, das notas da escola, do abandono de certas actividades. Dê-lhe espaço e atenção para que possa expressar os seus sonhos, as suas ideias e algumas actividades que poderia gostar de fazer mas sempre sem o criticar ou desvalorizar. Para saber mais sobre a forma como pode apoiar o jovem para se desenvolver mais saudavelmente sugerimos que veja, no final do documentário, as sugestões que se apresentam.
Apesar de existirem pais que se identificam com certas situações aqui descritas não se pode deixar de lembrar que cada caso é um caso. Todas as situações requerem, de certa forma, ser personalizadas e não se pretende com este artigo ter a chave que abre a porta a todas as soluções, o que se deseja é atingir um melhoramento no relacionamento com o jovem para que ele desenvolva as suas competências de maneira a poder enfrentar a vida sem se prejudicar a si próprio nem aos outros. Para finalizar, quero ainda sublinhar que quanto maior for a dificuldade do jovem em comunicar os seus mal-estares (psicológicos, afectivos, emocionais) mais se multiplica a procura de sensações fortes que o coloca em risco.
Muitas vezes, a simples insatisfação da necessidade psicológica de se sentir aceite tal como é, leva-o a escolher um grupo consumidor. No início, o jovem nunca se torna dependente da substância mas sim do grupo para se sentir aceite pelo mesmo.
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